Do menino do sal em Macau ao jovem que entregou a vida a Cristo em uma pequena igreja do sertão cearense.
A terra natal
Nas dunas e salinas de Macau, à beira do Atlântico potiguar, José passou a primeira infância. Nasceu em 18 de fevereiro de 1902, primeiro filho homem de João Elísio Emerenciano — o carpinteiro naval apelidado de “João Colchete” — e de Theodora Luísa, filha de portugueses. Desde cedo ajudava o pai a consertar barcos de pesca, cortando ferro com martelo e talhadeira para fazer os grandes pregos das embarcações.
Foi ali, em 1910, ainda menino, que viu no céu a cauda imensa do cometa Halley. A família se mudou para Natal e depois para Fortaleza, onde José começou a estudar. Um professor amigo do pai despertou nele um gosto raro para a época: a língua inglesa. Ninguém imaginava que aquele idioma seria, anos mais tarde, a chave para os seus estudos do outro lado do mundo.
A juventude e o Rio de Janeiro
Piedoso no catolicismo, chegou a querer ser padre e servia em três missas aos domingos. Aos dezenove anos, sonhando com a Marinha de Guerra, partiu sozinho para o Rio de Janeiro. Reprovado nos testes físicos, trabalhou dois anos na Companhia Lloyd Brasileiro. Voltou a Fortaleza com hábitos que o pai não reconhecia — charutos, cervejas, bailes — mas sem nunca abandonar o estudo do inglês.
A conversão
O ano de 1922 mudou o rumo de tudo. Enquanto esperava o bonde para encontrar os amigos, um grupo de crentes o convidou para um culto na Igreja Presbiteriana de Fortaleza. Indignado, José discutiu tanto que perdeu o bonde — e acabou entrando no templo. Naquela noite o Rev. Natanael Cortês pregou sobre a segunda vinda de Cristo, tema que o deixou impressionado.
Inconformado, comprou uma Bíblia católica e uma protestante e passou a comparar as duas. Algum tempo depois, já morando em Carius, no interior do Ceará, recebeu num mesmo dia dois convites: uma “cervejada” com os colegas e um culto na igreja evangélica. Aceitou os dois — e foi primeiro à igreja.
Ele sempre considerou aquela a decisão mais importante de toda a sua vida. Ao terminar o culto, foi à cervejada — não para a farra, mas para testemunhar aos amigos, radiante, o que lhe acontecera.
A oposição do pai
Em casa, o entusiasmo encontrou revolta. O pai o levou à força de volta à igreja católica e prometeu-lhe um comércio, com a condição de abandonar a nova fé. José recusou o presente e permaneceu firme. Diante da recusa, o pai cortou-lhe a ajuda financeira: “Se quiser continuar nesta casa, terá que abandonar essa sua fé.” Desempregado e sem lugar sequer para cantar hinos, o jovem decidiu partir mais uma vez.
Como o patriarca Abraão, que saiu da sua terra sem saber o que o esperava (Gn 12.1), José pediu ao governo do Ceará uma passagem de navio, e no início de 1923 embarcou de volta ao Rio de Janeiro, levando pouca roupa, alguns trocados e uma carta de recomendação. Chegou em plena semana de Carnaval, sozinho, sem conhecer ninguém — mas com a certeza de estar no caminho certo.
O chamado ao ministério
Na Igreja Presbiteriana do bairro do Caju, José fez sua profissão de fé e foi batizado. Ali, sob a pregação do Rev. Américo Cardoso de Menezes — que se tornou seu mentor —, recebeu o chamado para o sagrado ministério pastoral. Oraram juntos e escreveram cartas a colégios evangélicos do Paraná, de Minas e de São Paulo, buscando uma porta para os estudos. A resposta veio, e o caminho o levou ao Ginásio Evangélico do Alto Jequitibá, em Minas Gerais, e depois ao Seminário Presbiteriano de Recife.
“Desde a infância, Deus já estava moldando e equipando José para usá-lo no futuro.”