Capítulo 02 · Travessia

O chamado e a missão no Japão

Um convite inesperado, três dias de oração em Santos e uma viagem de navio que durou 62 dias — o Evangelho abrindo um caminho que ninguém havia planejado.

O encontro com o Bispo Juji Nakada

Nos anos em que estudava em São Paulo, José ouviu uma série de conferências do Bispo Juji Nakada, da Igreja Holiness, no Mackenzie. A ênfase daquela pregação marcou-o: o novo nascimento, a inteira santificação, a cura divina e a segunda vinda de Cristo. Ao fim de uma das reuniões, foi conversar com o bispo e abriu-lhe o coração — o chamado ao ministério, o desejo de servir, as dificuldades para concluir o seminário.

O governo brasileiro não permitia então a entrada de líderes japoneses no país, apenas de famílias para a lavoura. Sem pastores para cuidar da colônia, o Bispo Nakada teve uma ideia: convidar jovens brasileiros para estudar teologia no Japão, aprender a língua e os costumes e voltar como missionários entre os imigrantes. Vendo o interesse de José e o seu domínio do inglês, convidou-o para concluir os estudos no Seminário Teológico da Igreja Holiness, em Tóquio.

José pediu tempo para orar. Recolheu-se em Santos por três dias, buscando a certeza de estar no centro da vontade de Deus. Voltou em paz e confirmou a decisão.

“Deus enumera cada grão de areia; as ondas ouvem o seu mandar. (…) Sobre terra ou mar, onde Deus mandar, irei.”Hino “Deus tem um plano”, que José tanto amava

As 62 cartas

Ao saber da viagem, a Sociedade Auxiliadora Feminina da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo preparou um baú com enxoval completo para o frio do Japão. E fez algo que José jamais esqueceria: uma pequena caixa com sessenta e duas cartas de encorajamento, numeradas e datadas, uma para cada dia dos 62 dias de travessia. Durante os seus 65 anos de ministério, ele contava com emoção como cada carta, lida no dia certo, era um bálsamo para a saudade enquanto o navio se afastava da terra natal.

Navio Manila Maru
O navio Manila Maru, que partiu do porto de Santos em 8 de setembro de 1929 levando José e o amigo Paulo Villares rumo ao Japão.

A travessia

O Manila Maru levava também 185 imigrantes japoneses a caminho de Belém. Durante o trajeto de Santos até o porto paraense, José e Paulo ensinaram a eles o Hino Nacional Brasileiro, cantado diante do governador no desembarque — episódio que virou notícia nos jornais locais. Numa escala em São Francisco, na Califórnia, José provou o gosto amargo da segregação racial: os ônibus tinham lados separados para brancos e negros, e para ele, de pele morena, ficou a dúvida desconfortável sobre onde deveria sentar.

Em Yokohama, a recepção ao Bispo Nakada foi festiva, com faixas e bandeiras. José e Paulo passaram a estudar no Bible Training School, o seminário fundado por Nakada.

O estudante incansável

As aulas eram em inglês, e para as pesquisas José recorria a livros de teologia também em inglês — ali se via por que Deus lhe dera aquele gosto pelo idioma ainda menino. À noite, as luzes se apagavam às 22 horas por causa do racionamento de energia. Enquanto os colegas dormiam, José lia à luz do lampião ou sob a iluminação de uma praça vizinha. Aproveitava para estudar japonês e ler a Bíblia nas três línguas.

Aprendeu o japonês clássico de Tóquio com o professor Washio Yamazaki e logo já recitava textos bíblicos no novo idioma. Pregou ao ar livre, em colégios e em reuniões de reavivamento. Foi no Japão que, a seu pedido, foi batizado por imersão.

Seminaristas e professores do Bible Training School, 1931
Bible Training School — seminaristas e professores, Tóquio, julho de 1931.
Reportagem sobre o Bispo Juji Nakada
Bispo Juji Nakada — o líder da Igreja Holiness que abriu a porta para o Japão.

Concluídos os estudos em 1931, José voltou ao Brasil trazendo o certificado e as credenciais do Seminário Teológico da Igreja Holiness do Japão. Um nordestino formado em Tóquio, pronto para pregar o Evangelho em português e em japonês.

“À medida que o navio se afastava, cada carta era um bálsamo para a saudade.”